O que é bitcoin e como funciona: guia para entender antes de comprar
Blockchain, mineração, chaves, o limite de 21 milhões e o halving explicados sem jargão. Quem criou, para que serve e para que não serve bem, como comprar com segurança e o que dizem a lei brasileira e as regras europeias.
Bitcoin é uma moeda digital que funciona sem banco central, sem banco e sem empresa no comando: uma rede de computadores mantém um registro público de todas as transações, a blockchain, e as regras do próprio sistema limitam a emissão a 21 milhões de unidades. Ele vai de pessoa para pessoa pela internet, é negociado em corretoras e tem preço muito instável.
Como funciona o bitcoin
Tudo se apoia em quatro peças, descritas no bitcoin.org, site de referência do projeto, e no whitepaper:
- Blockchain: um livro-razão público com todas as transações confirmadas desde o início, que qualquer pessoa pode consultar e que a criptografia protege.
- Rede descentralizada: não há autoridade central. Computadores chamados nós guardam cópias da blockchain e conferem se cada transação segue as regras.
- Carteira e chaves: a carteira gera os endereços que você passa a quem vai lhe pagar e guarda a chave privada, o segredo que assina as transações. Pelo whitepaper, quem transfere uma moeda assina a transação anterior e a chave pública do novo dono; a rede confere a assinatura sem conhecer o segredo.
- Limite de 21 milhões: segundo o bitcoin.org, nunca existirão mais de 21 milhões de bitcoins.
Duas consequências: transação confirmada não se desfaz (só quem recebeu pode devolver), e o bitcoin não é anônimo, porque os pagamentos não levam nome, mas ficam públicos para sempre.
Mineração, prova de trabalho e halving
Minerar é juntar transações pendentes num bloco e acrescentá-lo à blockchain. O minerador precisa achar, por tentativa e erro, um resultado criptográfico abaixo de um alvo definido pela rede, o que consome computação e eletricidade: é a prova de trabalho do whitepaper. Alterar um bloco antigo exigiria refazer o trabalho dele e de todos os seguintes, o que torna o registro praticamente imutável enquanto a maioria do poder de computação for honesta.
O código do Bitcoin Core, o programa de referência, mira um bloco a cada 10 minutos e recalcula a dificuldade a cada 2.016 blocos, cerca de duas semanas. Quem acha o bloco recebe bitcoins novos mais as taxas das transações. A parte das moedas novas cai pela metade a cada 210 mil blocos, mais ou menos a cada quatro anos: é o halving. Ela começou em 50 bitcoins em 2009 e já passou por quatro cortes; o mais recente foi no bloco 840.000, minerado em 20 de abril de 2024, quando caiu de 6,25 para 3,125 bitcoins, valor que vale até o bloco 1.050.000.
Quem criou o bitcoin e quando
Em 31 de outubro de 2008, alguém que assinava como Satoshi Nakamoto mandou a uma lista de discussão sobre criptografia o whitepaper Bitcoin: A Peer-to-Peer Electronic Cash System. A proposta: dinheiro eletrônico direto entre pessoas, sem instituição financeira, com uma rede ponto a ponto que impede gastar a mesma moeda duas vezes. O bloco gênese, o primeiro, foi minerado em 3 de janeiro de 2009. Segundo o bitcoin.org, Satoshi deixou o projeto no fim de 2010.
Para que serve o bitcoin, e para que não serve bem
Na origem, é um meio de pagamento sem intermediário. Funciona, com limites: a primeira confirmação costuma levar de 10 a 60 minutos, segundo o bitcoin.org, e não existe estorno como no cartão de crédito.
Para muita gente, virou sobretudo uma aposta na valorização. A SEC, que regula o mercado de capitais dos Estados Unidos, o descreveu em janeiro de 2024 como um ativo principalmente especulativo e volátil. Quem o vê como reserva de valor aponta a oferta limitada; quem desconfia lembra que o preço pode despencar em pouco tempo.
El Salvador fez do bitcoin moeda de curso legal em setembro de 2021, ao lado do dólar. Como condição para um acordo de 1,4 bilhão de dólares com o FMI, aprovado em fevereiro de 2025, a lei mudou: segundo o relatório do Fundo, a reforma publicada em 30 de janeiro de 2025 tirou as características essenciais de curso legal, tornou voluntário aceitar bitcoin no setor privado e exigiu impostos só em dólar.
Bitcoin, criptomoedas, altcoins e stablecoins
O bitcoin foi a primeira criptomoeda, não a única. A Receita Federal separa os criptoativos em grupos: o bitcoin; as altcoins, as outras criptomoedas, como o ether; as stablecoins, referenciadas numa moeda tradicional como o dólar para tentar manter o valor estável; e os NFTs. Cada grupo tem riscos e usos próprios.
Qual o valor do bitcoin e por que ele oscila tanto
Ninguém fixa o preço: ele sai da negociação entre compradores e vendedores nas corretoras. Por isso este guia não traz cotação, que envelheceria em minutos; a página de cotações do MATHEUZERA mostra o BTC ao vivo. O bitcoin.org atribui a volatilidade ao mercado ainda relativamente pequeno, em que quantias modestas movem o preço, e a CNMV, reguladora espanhola, lista entre os riscos dos criptoativos a possibilidade de perda total do dinheiro investido.
Como comprar bitcoin com segurança
Use uma corretora autorizada
No Brasil, as regras do Banco Central para as prestadoras de serviços de ativos virtuais valem desde 2 de fevereiro de 2026, e quem quer atuar precisa pedir autorização. Na Espanha, desde 1º de julho de 2026 só operam prestadores autorizados sob o MiCA.
Conheça a alternativa do ETF
Fundos negociados em bolsa acompanham o preço sem que você guarde chaves. A SEC aprovou produtos à vista de bitcoin em 10 de janeiro de 2024, avisando que não era um aval ao bitcoin.
Decida onde guardar
O bitcoin.org lembra que serviços online podem ser invadidos, quebrar ou bloquear o acesso. Na autocustódia, a carteira é sua: pouco no celular, o resto num dispositivo desconectado.
Proteja a frase-semente
A carteira própria gera uma frase de recuperação que restaura todos os endereços. Quem tem a frase tem os bitcoins; se ela se perder junto com o aparelho, as moedas ficam paradas para sempre. Guarde cópias em lugares seguros e nunca a digite em site.
Ative a verificação em duas etapas
Na conta da corretora, ligue a autenticação de múltiplos fatores.
Bitcoin no Brasil: a lei, o Banco Central e o Imposto de Renda
A Lei 14.478, de 21 de dezembro de 2022, define ativo virtual como representação digital de valor negociável ou transferível por meios eletrônicos, usada para pagamentos ou investimento; moedas nacional e estrangeiras ficam de fora. Ela exige autorização prévia para as empresas do setor. O Decreto 11.563, de junho de 2023, deu ao Banco Central a tarefa de regular, autorizar e supervisionar essas empresas, sem tirar o papel da CVM. Pelas regras divulgadas pelo Banco Central em novembro de 2025, as prestadoras devem informar riscos e taxas com clareza e avaliar o perfil do cliente antes de operações mais complexas.
No Imposto de Renda, o manual da Receita Federal, atualizado em maio de 2026, manda declarar criptoativos em Bens e Direitos quando o valor de aquisição de cada espécie chega a 5 mil reais, sempre pelo valor pago, e não pela cotação do momento.
Bitcoin na Espanha e na União Europeia
Na União Europeia vale o MiCA, o Regulamento (UE) 2023/1114, aplicado desde 30 de dezembro de 2024. Ele regula as empresas, não o risco de preço: em outubro de 2025, as autoridades europeias de supervisão (EBA, EIOPA e ESMA) avisaram que criptoativos podem ser arriscados e que a proteção legal pode ser limitada, e a CNMV lembra que não há indenização se um prestador quebrar. Na Espanha, o modelo 721 da Agencia Tributaria é obrigatório quando as moedas virtuais mantidas no exterior passam de 50 mil euros em 31 de dezembro.
Fontes e referências
- Satoshi Nakamoto: Bitcoin: A Peer-to-Peer Electronic Cash System (whitepaper) (abre em nova aba)
- The Cryptography Mailing List: anúncio do whitepaper (31 de outubro de 2008) (abre em nova aba)
- bitcoin.org: perguntas frequentes (abre em nova aba)
- bitcoin.org: como funciona (abre em nova aba)
- bitcoin.org: proteja sua carteira (abre em nova aba)
- Bitcoin Core: parâmetros da rede (código-fonte) (abre em nova aba)
- Bitcoin Developer Guide: blockchain e dificuldade (abre em nova aba)
- Blockchain.com: bloco gênese (bloco 0) (abre em nova aba)
- Blockchain.com: bloco 840.000 (halving de abril de 2024) (abre em nova aba)
- SEC: declaração sobre os produtos à vista de bitcoin (10 de janeiro de 2024) (abre em nova aba)
- FMI: aprovação do acordo com El Salvador (26 de fevereiro de 2025) (abre em nova aba)
- FMI: relatório 25/58 sobre El Salvador (2025) (abre em nova aba)
- Planalto: Lei 14.478, de 21 de dezembro de 2022 (abre em nova aba)
- Planalto: Decreto 11.563, de 13 de junho de 2023 (abre em nova aba)
- Banco Central do Brasil: regulamentação dos serviços de ativos virtuais (novembro de 2025) (abre em nova aba)
- Receita Federal: bens financeiros e criptoativos no Meu Imposto de Renda (abre em nova aba)
- CNMV: regulação de criptoativos (MiCA) (abre em nova aba)
- ESMA: autoridades europeias alertam sobre riscos dos criptoativos (6 de outubro de 2025) (abre em nova aba)
- Agencia Tributaria: perguntas frequentes sobre o modelo 721 (abre em nova aba)
- FTC: o que saber sobre criptomoedas e golpes (abre em nova aba)


